Transcrição da reportagem do Jornal Nacional (Edição do dia 13/05/2011), retirada do link http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/05/mec-defende-que-aluno-nao-precisa-seguir-algumas-regras-da-gramatica-para-falar-de-forma-correta.html
MEC defende que aluno não precisa seguir algumas regras da gramática para falar de forma correta
O livro de português distribuído pelo Ministério da Educação defende que a maneira como as pessoas usam a língua deixe de ser classificada como certa ou errada e passe a ser considerada adequada ou inadequada.
Um livro de português distribuído pelo Ministério da Educação (MEC) para quase meio milhão de alunos defende que a maneira como as pessoas usam a língua deixe de ser classificada como certa ou errada e passe a ser considerada adequada ou inadequada, dependendo da situação.
Na semana em que o Jornal Nacional tem discutido os maiores problemas do Brasil na educação, os argumentos da autora do livro e as reações que provocaram estão na reportagem de Júlio Mosquéra.
A defesa de que o aluno não precisa seguir algumas regras da gramática para falar de forma correta está na página 14 do livro “Por uma vida melhor”. O Ministério da Educação aprovou o livro para o ensino da língua portuguesa a jovens e adultos nas escolas públicas.
Ele apresenta a frase: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”, com a explicação: “Na variedade popular, basta que a palavra ‘os’ esteja no plural”. “A língua portuguesa admite esta construção”.
A orientação aos alunos continua na página 15: “Mas eu posso falar ‘os livro’?”. E a resposta dos autores: “Claro que pode. Mas com uma ressalva, ‘dependendo da situação a pessoa corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico’”.
Heloísa Ramos, uma das autoras do livro, disse que a intenção é mostrar que o conceito de correto e incorreto deve ser substituído pela ideia de uso adequado e inadequado da língua. Uso que varia conforme a situação. Ela afirma que não se aprende o português culto decorando regras ou procurando o significado de palavras no dicionário.
“O ensino que a gente defende e quer da língua é um ensino bastante plural, com diferentes gêneros textuais, com diferentes práticas, diferentes situações de comunicação para que essa desenvoltura linguística aconteça”, declarou ela.
O Ministério da Educação informou em nota que o livro “Por uma vida melhor” foi aprovado porque estimula a formação de cidadãos capazes de usar a língua com flexibilidade. Segundo o MEC, é preciso se livrar do mito de que existe apenas uma forma certa de falar e que a escrita deve ser o espelho da fala.
O Ministério da Educação disse que a escola deve propiciar aos alunos jovens e adultos um ambiente acolhedor no qual suas variedades linguísticas sejam valorizadas e respeitadas, para que os alunos tenham segurança para expressar a “sua voz”.
A doutora em sociolinguística Raquel Dettoni concorda que é preciso respeitar o falar popular, que não pode ser discriminado. Mas ela enfatiza que a escola tem um objetivo maior, que é ensinar a língua portuguesa que está nas gramáticas.
“Se a escola negligencia em relação a este conhecimento, o aluno terá eternamente uma lacuna quando ele precisar fazer uso disso no seu desempenho social. Nós não podemos desconsiderar que a função social da escola, com relação ao ensino de língua portuguesa, é – em princípio – prioritariamente ensinar os usos de uma norma mais culta”, destacou.
O Ministério da Educação informou ainda que a norma culta da língua portuguesa será sempre a exigida nas provas e avaliações.
Resposta desta professora de língua portuguesa ao MEC:
Há quanto tempo vocês não entram numa sala de aula? Há quanto tempo vocês não leem um livro didático de língua portuguesa? Há quanto tempo vocês não ouvem um professor dessa disciplina? Meus Deus!!!, será que algum professor de português ainda classifica a língua em errada ou certa?
Há muito tempo que se trabalha em sala de aula as questões de adequação e inadequação das variantes linguísticas, e junto com essas questões, a importância de se aprender o português culto e a função da escola de ensiná-lo.
“O ensino do português padrão: O objetivo da escola é ensinar o português padrão, qualquer outra hipótese é um equivoco. A tese de que não se deve exigir dos alunos o domínio do dialeto padrão, baseia-se no preconceito de que teriam dificuldades em aprender, o que não é verdade. O dialeto não padrão os alunos já sabem, e falar em não ensinar o padrão equivale a tirar o português das escolas.” (POSSENTI, S. Sobre o Ensino de Português na Escola . Disponível em http://culturadetravesseiro.blogspot.com/2009/01/sobre-o-ensino-de-portugus-na-escola.html . aceesso em 14/05/2011)
Alguém ai já ouviu falar do Possenti? Como linguista, ele também defende o respeito às variantes linguísticas e os professores de língua portuguesa, aqueles que estão lá nas salas de aula, poderiam passar o dia citando e seu trabalho contra o preconceito linguístico.
E o Marcos Bagno? Ele é “o cara” quando se fala em preconceito linguístico… nunca vi ninguém com fala tão veemente quando o assunto é Gramática Tradicional! Mas ele sabe sobre o que fala:
“Por mais que os linguistas rejeitem a norma-padrão tradicional, por não corresponder às realidades de uso da língua, eles não podem desprezar o fato de que, como bem simbólico, existe uma demanda social por essa “língua certa”, identificada como um instrumento que permite acesso ao círculo dos poderosos, dos que gozam de prestígio na sociedade.”
E continua:
“Uma das tarefas do ensino de língua na escola seria, portanto, discutir criticamente os valores sociais atribuídos a cada variante linguística, chamando a atenção para a carga de discriminação que pesa sobre determinados usos da língua, de modo a conscientizar o aluno de que sua produção linguística, oral ou escrita, estará sempre sujeita a uma avaliação social, positiva ou negativa.”
Não consigo parar de citá-lo (e olha que isso tudo está num único artigo de seu blog):
“E é ao usuário da língua, ao falante/escrevente bom conhecedor das opções oferecidas pelo idioma, que caberá fazer a escolha dele, eleger as opções dele, mesmo que elas sejam menos aceitáveis por parte de membros de outras camadas sociais diferentes da dele. O que não podemos é negar a ele o conhecimento de todas as opções possíveis.
Para realizar essa tarefa, o docente precisa se apoderar do instrumental que a ciência linguística, e mais especificamente a Sociolinguística, oferece para a análise criteriosa dos fenômenos de variação e mudança linguística.
O profissional da educação tem que saber reconhecer os fenômenos linguísticos que ocorrem em sala de aula, reconhecer o perfil sociolinguístico de seus alunos para, junto com eles, empreender uma educação em língua materna que leve em conta o grande saber linguístico prévio dos aprendizes e que possibilite a ampliação incessante do seu repertório verbal e de sua competência comunicativa, na construção de relações sociais permeadas pela linguagem cada vez mais democráticas e não-discriminadoras.” (BAGNO, M. Nada na língua é por acaso: ciência e senso comum na educação em língua materna. Brasília, 2006. Disponível em http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=37 . Acesso em 14/05/2011)
Ficam aqui duas reflexões:
Se não se ensina a língua culta na escola, não é uma grande incoerência cobrá-la em provas (escolares e de concursos públicos)?
Será que eu estaria aqui citando Marcos Bagno e Sírio Possenti se os seus textos estivessem escritos numa variante de menor prestígio social?
Volto a falar sobre o tema.



