Hoje, em conversa com Naíse, uma dedicada aluna, percebi nela o desejo de ser professora e a dúvida de até que ponto isso era algo bom.
Que dilema o meu: não posso tirar-lhe os sonhos, tampouco deixá-la criar falsas expectativas em relação a algo tão importante na vida de um aluno do 3º ano do Ensino Médio: a escolha da profissão.
Vou aqui citar os versos ditos pelo personagem principal Hamlet, da tragédia mais famosa de William Shakespeare, e ao mesmo tempo tentar fazer uma analogia com a vida de professor.
“Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
(Seremos capazes de lidar com o sofrimento que vem junto com o destino de ser professor ou nos revoltaremos contra as provações e poremos um fim à carreira de educador?… e descansaremos.)
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir… é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
(Seremos capazes de com uma noite de sono, ao fnal de um dia de trabalho, acabar com as angústias e as batalhas, heranças da profissão de professor. Matar toda noite o professor que existe em nós para dormir em paz como merecemos e desejamos com fervor?…)
Dormir… Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte o sonho que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
(É em nosso descanso, nos nossos sonhos que surge o problema: livres da (o)pressão do sistema que nos sufoca e aprisiona, quando deveríamos duvidar do prazer de ser professor: é quando percebemos que é isso que nos faz persistir e continuar professor por toda a vida…)
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos têm de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,
–Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta –
Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
(Quem sofreria as chicotadas e a zombaria do mundo, a ofensa do opressor, a afronta do orgulhoso, as fisgadas do desprezo, a arrogância oficial, as demoras da lei, as injúrias que têm de suportar dos que tem uma existência sem valor. Quem sofreria o merecimento paciente quando chegasse como pagamento a agressão física ou moral? Quem levaria uma responsabilidade tão grande como a de educar, gemendo e suando sob a vida cansativa, se tivesse medo de alguma coisa (…) quem se põe a voar pelos outros, por seus alunos?…)
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação. (…)
(Esse pensamento nos amedontra, e assim é que se cobre o rosto normal na decisão de ser professor. Com o tom pálido e enfermo caracterizado por um estado de abatimento mental, pela sensação de impotência, pelo sentimento de que a vida não possui sentido. E desde que nos surgem tais reflexões, a iniciativa de realizar altos propósitos, de sermos profissionais de áreas mais respeitadas e mais bem remuneradas e que bem mais alto voam nesse mundo, desviam-se de rumo e deixam até mesmo de se chamar ação…)
Acho que é isso!
(Tradução de SILVA RAMOS, Péricles Eugênio da. Hamlet Editora Abril, 1976.)
Em matéria recente, a Revista Nova Escola alertou para um problema bem grave. Uma pesquisa revelou que apenas 2% da população brasileira pensa em seguir a área de docência. Por que será?
Elenquei aqui alguns problemas que os próprios professores apontam, justificando (ou pelo menos esplicando) a insatisfação em lecionar:
- Falta de reconhecimento profissional (pessoal e financeiro).
- Falta de respeito dos alunos e da sociedade de um modo geral.
- Falta de comprometimento do grupo gestor das escolas.
- Falta de acesso a ferramentas educacionais inovadoras.
- etc., etc, etc., etc.,…
Talvez por isso haja tantos profissionais de outras áreas na educação. Na Matemática, por exemplo, encontramos engenheiros, administradores e economistas “ensinando” mesmo sem saber qual a aplicabilidade dos conteúdos “ensinados”. Além disso, muitos desses estão em sala de aula “fazendo um bico” e têm vergonha até mesmo de dizerem que estão lecionando. Imagina um economista ou um engenheiro civil dizer que é professor de matemática da sexta série de uma escola estadua – que vergonha para um cara com a formação dele, hein!
Aliás, essas pessoas acabam deturpando as disciplinas nas quais ministram aulas, pois, na maioria das vezes, não têm uma fundamentação teórica e metodológica, as quais são essenciais aos educadores no processo de ensino-aprendizagem. Entrar em uma sala de aula e reproduzir exercícios, impor fórmulas que resolvem determinados exercícios, “ensinar truques e macetes” e fazer com que os alunos sejam alienados e mecanizados no seu “aprender” não é tarefa de professor, é tarefa de instrutor de concurso. Quem faz isso não pode ser considerado um professor, afinal, qual o objetivo da Educação?
Ei-la: educar é formar cidadãos conscientes, que saibam interpretar, seres pensantes, questionadores, competentes para enfrentar a sociedade em que vivem. E será que é isso que acontece hoje nas salas de aula?
Tudo isso está aqui apenas para você refletir sobre a seguinte questão: quero SER professor ou ESTAR professor?
Albert Einstein dizia que não podemos pretender que as coisas mudem se sempre fazemos o mesmo. Que a crise é uma bênção para pessoas e países, porque traz progressos. Que “a criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura”. As invenções nascem nas crises, bem como os descobrimentos e as grandes estratégias. Superar a crise é superar a si mesmo sem ser superado. Atribuir à crise os fracassos e penúrias agride o talento próprio e foca mais nos problemas que nas soluções. A verdadeira crise é a da incompetência. O inconveniente é que tanto as pessoas quantos os países têm a esperança de encontrar saídas e soluções fáceis. “Sem crise não há desafios, sem desafios a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la.”


